Contornando as armadilhas do YouTube
Uma garfada de internet

Esta é a edição inaugural de "Uma garfada de internet", a newsletter de tecnologia para gente ocupada que lida com crianças, ecrãs, e crianças com ecrãs.

Neste número zero, olhamos para o YouTube e descrevemos algumas tácticas para evitar o lado mau desta enorme biblioteca de vídeos.

Recebeste através de uma pessoa amiga?
Podes assinar a newsletter aqui.

Contornando as armadilhas do YouTube

O YouTube é uma das maravilhas dos tempos que vivemos: uma gigantesca biblioteca de vídeos de todo o tipo — e mais uns tipos que nem sabíamos existir. Para pais ocupados, é um recurso irrecusável para podermos deixar os nossos filhos entretidos com vídeos que lhes agradem e, idealmente, que lhes possam ensinar algo de bom.

Mas qualquer pessoa que tenha passado 2 minutos no YouTube já testemunhou as suas várias armadilhas viciadoras e riscos algorítmicos. O YouTube não foi construído como recurso pedagógico para ajudar ao desenvolvimento das crianças, mas sim como plataforma especializada em capturar a atenção das pessoas para poder vender anúncios.

Abstract Youtube

Visualização abstracta da página inicial do YouTube, criada com a extensão Abstract Browsing do artista Rafael Rozendaal

O autoplay é uma espécie de scroll infinito aplicado ao vídeo: deixa de haver pausa e espaço para pensarmos se queremos fazer outra coisa. São-nos recomendados, na coluna da direita, vários vídeos com imagens berrantes e premissas atraentes: "Não vais acreditar no que este cozinheiro fez com 3 pedras e um sapato!"

Na corrente de vídeo atrás de vídeo, rapidamente passamos de séries infantis para falsos documentários sobre como as vacinas matam. A introdução de vídeos curtos no YouTube Shorts é uma tiktokização que só multiplica os problemas. E mesmo que criemos as nossas playlists feitas à medida dos nossos critérios, o autoplay descontrolado voltará mal a playlist termine.

Sabemos que nada disto é acidental e faz parte da lógica da plataforma. Face a isso, o que podemos fazer para resgatar a atenção das crianças e minimizar os riscos e consequências do uso prolongado do YouTube?

A verdade é que a curadoria dá muito trabalho e que ter um algoritmo a escolher por nós é tremendamente conveniente. O problema é quando não controlamos esse algoritmo, nem temos forma de saber como é que decide o que é bom ou não para nós. Por isso, juntámos um conjunto de medidas práticas para tornar a experiência das crianças no YouTube um pouco menos má.

Experimentar o YouTube Kids

Uma primeira medida é passar a usar exclusivamente o YouTube Kids, uma versão do YouTube com algumas restrições pensadas para crianças que usam o site. Não resolve as questões da privacidade nem nos dá muito controlo sobre a experiência, mas é uma via mais segura.

No browser, usar interfaces alternativos

Existem sites que nos dão acesso aos vídeos do YouTube, sem a camada de publicidade e distrações que o YT insiste em dar-nos.

O mais popular é o Invidious, que nos dá uma lista de "instâncias" onde podemos pesquisar e ver vídeos do YouTube, sem ter de aceder directamente ao site. É uma boa forma de contornar o interface do YouTube para quem usa o Safari ou outro browser que não possa acomodar as extensões que recomendamos mais abaixo.

Infelizmente, a Google dedica-se a eliminar as vias que estes sites utilizam para aceder aos vídeos, e por isso nem sempre o acesso é fiável. O serviço do Invidious depende de servidores operados por voluntários, o que significa que pode eventualmente ficar temporariamente ou permanentemente indisponível.

Nos telemóveis e tablets, usar apps alternativas

Usar um browser num computador é a forma de navegar na internet que nos dá maior controlo sobre a nossa experiência, mas às vezes não há como contornar a conveniência do smartphone. Em dispositivos móveis, a app oficial do Youtube não permite o uso de extensões e obriga-nos por isso a aceitar anúncios, auto-plays e outras funcionalidades que não desejamos. Mas há alternativas!

No Android temos o NewPipe, que simplifica imenso a experiência de usar o YouTube e acrescenta alguns extras úteis, como a possibilidade de fazer o download de vídeos ou o registo do historial do que vimos sem estar a enviar essa informação para a Google.

Para iOS, existe o uYouPlus mas a sua instalação não é fácil, além de que não a experimentámos e por isso não podemos fazer uma recomendação. Como alternativa, sugerimos experimentar o Invidious ou o Youtube Kids.

No computador, usar o Firefox com extensões

O Firefox ainda é o browser de eleição para quem quer ter maior controlo sobre a sua experiência online, e pode ser descarregado gratuitamente aqui. Recomendamos utilizá-lo junto com duas importantes extensões:

  1. o Distraction-Free YouTube, que trata de ocultar recomendações, desativar o autoplay e várias outras melhorias na experiência. Esta extensão está também disponível para os browsers Chrome e Edge.
  2. o uBlock Origin, que bloqueia os anúncios no site e nos vídeos. Disponível apenas para Firefox.

Estas extensões também existem para o Firefox em smartphones Android!

Usar apenas o computador para aceder

As Smart TVs estão em todo o lado mas são provavelmente a experiência mais invasiva de YouTube que podemos encontrar, já que não temos forma de instalar apps alternativas ou controlar a experiência de visualização. A app oficial do Youtube para smartphone e tablet também não nos dá margem para evitar os piores pormenores da plataforma.

Há uma solução, que nem sempre é a mais prática mas que nos dá maior controlo: usar apenas o computador para aceder ao YouTube. Com as extensões acima recomendadas, ficamos praticamente livres de anúncios invasivos e autoplays indesejados. O ideal é mesmo ter um computador ligado à televisão: não é o cenário mais prático, mas vale a pena o incómodo.

Evitar vídeos no smartphone

Uma estratégia que adotámos, e que funciona enquanto as crianças são pequenas, é nunca mostrar vídeos no telemóvel, seja no YouTube ou outro. Ao usarmos outro aparelho -- um computador, ou mesmo uma tablet -- estamos a ensinar que essa é uma possibilidade reservada a esses mesmos aparelhos.

Isto faz com que o telemóvel dos pais não se torne imediatamente um objeto de desejo para as crianças, e também nos obriga a alguma disciplina ao termos de evitar ver vídeos junto delas, motivando-nos para encontrar outras formas de passar o tempo. Partilharemos algumas nas próximas edições!

Mas, mas, mas...

Nem sempre temos as condições ideais: muitas vezes falta-nos o tempo, a disponibilidade ou a paciência para conseguirmos pôr em prática estas e outras medidas de protecção da atenção das nossas crianças. Não podemos considerar isso um fracasso: nós – pais, educadores e cuidadores – vemo-nos numa posição desigual face a mega-empresas com milhares de especialistas dedicados a capturar a atenção das nossas crianças (e a nossa também!).

Termos a noção de que estas ameaças existem já é um bom começo, e sentimos que a solução não passa por apontar culpas, mas sim por partilhar as experiências e soluções que vamos encontrando.

Ajuda-nos a chegar a mais pessoas! Recomenda esta newsletter por , , , ou .

Coisas que a internet tem de bom

As nossas recomendações de recursos, vídeos, jogos
para continuarmos a apreciar as benesses das inter-redes

A Day of Us

A Day of Us

Os pequenos gestos do dia-a-dia de uma gata e um cão são o tema da série A Day of Us, da animadora sul-coreana Miyoung Kim. São vídeos curtos e adoráveis sobre os pequenos carinhos, partilhas e tropeções da vida de casal e família, com o condão de encantar todas as idades.

O Dumpling Time é o episódio destacado, mas cá em casa nunca nos cansamos de rever o A Date.

@adayofus no YouTube
@adayofus.official no Instagram

Termo.pt

Termo.pt

O Wordle é um jogo de palavras que fez sucesso quando foi lançado em 2021 -- tanto sucesso que acabou por ser comprado pelo New York Times. O princípio é simples: é preciso adivinhar uma palavra de 5 letras em 6 tentativas.

Os miúdos adoram ver-nos a jogar e pedem para carregar nas letras, mas a experiência fica limitada por o jogo ser em inglês. Felizmente houve quem criasse uma versão em português -- obrigado, Vítor Nunes!

Termo.pt

Legos e rockalhada

White Stripes - Fell In Love With A Girl

Os videoclips são uma boa forma de mostrar música às crianças junto com componentes visuais que a tornam mais legível e audível. Por isso, começamos a partilha dos nossos clips de eleição com o clássico Lego de Michel Gondry para ilustrar o primeiro single dos White Stripes. Indicado para introduzir as crianças ao head-banging.

The White Stripes - Fell In Love With A Girl (YouTube)

Algo de interessante para acabar: Descobrimos há pouco tempo que, no teclado da maioria dos smartphones, premir prolongadamente o Espaço e arrastar o dedo para a esquerda e direita serve para mover o cursor de escrita. Foi uma revelação particular que seguramente também impressionará as pessoas mais jovens à tua volta que também mexem com teclados de telefone.

Este é o número zero de Uma Garfada de Internet, a newsletter de tecnologia para quem lida com crianças. Duas vezes por mês na tua inbox, assinar é fácil.

Se quiseres dar-nos sugestões, comentários ou simplesmente dizer algo, escreve-nos para ola@garfada.pt.

Esta newsletter é possível graças ao Keila, a solução livre e open source para newsletters.

Cancelar a assinatura?